Entre Picadas e Mordidas: Animais peçonhentos e a soroterapia!

Entre Picadas e Mordidas: Animais peçonhentos e a soroterapia!

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Por Daniel Zani La Laina

Ao longo da história, envenenamentos causados por animais peçonhentos foram tratados das mais diversas formas possiveis. Rituais, ervas mágicas, pedras e amuletos sagrados, uma boa cachacinha e até excremento fizeram e ainda fazem parte do arsenal. Atualmente, o soro antiveneno é considerado a única e mais eficiente alternativa em caso de acidente.

Mas só cachaça cura sua timidez

No Brasil, os cuidados dependiam de crenças e conhecimentos tradicionais, até que no fim do século XIX e início do século XX, o desenvolvimento da Imunologia e da Microbiologia começaram a mudar tais abordagens a partir dos trabalhos de O. Wucherer, que acreditava ser possível imunizar um organismo através do próprio envenenamento, e que a partir disso uma profilaxia poderia ser obtida. Apesar da falta de resultados, essas idéias foram o gatilho para um aprofundamento no assunto. Foi dessa forma que H. Sewall, demonstrou que pombas repetidamente inoculadas com o veneno altamente diluido de uma cascavel norte-americana, criavam resistência ao antígeno/.

A família de Sewall nunca foi perdoada

A descoberta de que um animal poderia ser protegido contra um veneno a partir da inoculação de anticorpos de outro animal previamente envenenado foi feita por Phisalix & Bertrand e Calmette, em 1984. Calmette foi, na verdade, o primeiro a usar o soro no tratamento de pacientes picados por serpentes e começou a fabricação do primeiro soro antiofídico! Mas onde entra o glorioso Vital Brazil nessa história?

Foi Vital Brazil, trabalhando no Instituto Serumtherapico do Estado de São Paulo, atual Instituto Butantan, que demonstrou pela primeira vez que os soros tinham de ser específicos de acordo com o gênero da serpente causadora do acidente, ou seja, uma picada de cascavel precisa ser tratada com soro a partir do veneno de cascavel. Até então, Calmette acreditava que seu soro genérico serviria para qualquer tipo de serpente.

Deal with it

Em 1901, quando Vital começou a produção dos soros antiofídicos, a letalidade nos casos de acidentes com serpentes peçonhentas era estimada em 25%. Hoje em dia esse número está entre 0,4 – 0,8%, sendo que em 1906 a letalidade já havia caído 50%.

A administração do soro por via muscular e subcutânea já foi muito usada, mas atualmente está claro que a melhor forma de se fazer isso é pela via endovenosa, com o soro diluído em solução fisiológica. Apesar de eficaz em salvar vidas, a soroterapia não consegue reverter sequelas, principalmente nos tecidos, já provocadas pelos venenos. O soro impede que o veneno cause mais estragos, porém não reverte os estragos já feitos, sendo necessárias outros tipos de intervenções.

Quanto mais cedo o paciente receber o soro, melhores suas chances de recuperação. Mesmo assim, quando necessário, o antiveneno deve ser administrado independente de quanto tempo se passou desde o acidente.

Como é feito o soro

Basicamente, os antivenenos são concentrados de anticorpos de animais, que ajudam a combater as toxinas no nosso corpo. Para conseguir tal maravilha, a peçonha do animal causador de acidentes é retirada para em seguida ser injetada no animal que vai fornecer os anticorpos. O cavalo tem sido o preferido por ser manso, relativamente de fácil manutenção e fornecer uma quantidade grande de sangue. Enfim, no cavalo é injetado uma solução de veneno bem diluída. Para combater esse veneno, o corpo do cavalo fornecerá anticorpos. O sangue do cavalo é então coletado e os anticorpos purificados para se fazer o soro. Claro que existem coisas muito mais complexas por trás disso tudo, mas fica aí uma explicação geral do processo.

“Cavalo? Não, não passou nenhum por aqui”

A purificação dos anticorpos é muito importante pois outros componentes do sangue podem causar reações alérgicas na soroterapia. Essas reações acontecem ainda hoje, tamanha a complexidade de se purificar totalmente esses anticorpos. Apesar disso, as reações alérgicas raramente são graves e continuan valendo muito mais a pena usar o soro!

Um abraço!!

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