FAZENDO ARTE: O QUE A BIOLOGIA E A POESIA TÊM EM COMUM?

FAZENDO ARTE: O QUE A BIOLOGIA E A POESIA TÊM EM COMUM?

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Por Carolina Brandão Zanelli

“open book”, de Sarah Browning

Você já parou pra pensar no que a biologia e a poesia têm em comum?

Uma possível resposta seria “a fascinação pela vida”!

Dê uma olhada nos exemplos abaixo!

O Bicho

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achav aalguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

Manuel Bandeira

 

O TAMANHO DA GENTE

O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural…
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho…

Mario Quintana

 

A FLORESTA

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos de spenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gostos aboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.

Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brisa.

De repente parei.Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.

Que seria?De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela.Meu Deus, que majestade!
Desmontei.Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se empeitadas
Em contorsões, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertando entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de grito sinteriores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita e La toda de esperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei.De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento.Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

Vinicius de Moraes

 

E você? Curte poesia? Escreve suas próprias poesias? Conhece outros exemplos de poesias cujos temas se relacionem à biologia? Se sim, compartilhe essas “(bio)poesias” nos comentários abaixo!

 

Carolina Brandão Zanelli é uma bióloga, desenhista e escritora que resolveu juntar a curiosidade de cientista com a criatividade de artista. O resultado foi Art for Scientists: um site dedicado a inspirar cientistas, artistas, pais, professores e estudantes a enxergar ciência e arte de forma integrada, onde ela também oferece serviços de ilustração e tradução científica.

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