Entre picadas e mordidas: Acidente escorpiônico

Entre picadas e mordidas: Acidente escorpiônico

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Por Daniel Zani La Laina - Bacharelado em Ciências Biológicas

Em uma sala repleta dos animais preferidos da humanidade, escorpiões estariam no canto chorando e sendo zoados até pelas serpentes. Excetuando-se alguns biólogos e especialistas no assunto, ninguém exibe a admiração que esses artrópodes quelicerados merecem. Praticamente iguais por 400 milhões de anos, alguns paleontólogos defendem que seus ancestrais foram pioneiros na conquista do ambiente terrestre, apesar de estudos mostrarem que a primeiras formas terrestres de escorpião só vieram a aparecer milhões de anos mais tarde.

E quando ele consegue amigos, acontece isso.

Salvo na Antártida, as 1.500 espécies de escorpião estão espalhadas por todos os continentes. Hoje são reconhecidas 20 famílias, e a que nos interessa, nesse momento, é a família Buthidae, que engloba todos os 25 escorpiões com potencial para estragar nosso dia.

Acho que isso pode ser considerado um dia ruim.

No Brasil, o gênero Tityus é o grande responsável por acidentes considerados graves ou até mesmo fatais. Desses, T. serrulatus, o escorpião amarelo, aparece como o agente mais importante.

Escorpião-amarelo salvando o dia!

O escorpião amarelo pode ser encontrado em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro e Goiás. Estudos mostram que eles são vistos em nossos pesadelos também.

São escorpiões com cerca de 5,5 cm de comprimento e hábitos noturnos, preferindo se esconder do sol. São considerados uma espécie oportunista, pois se adaptam bem a ambientes modificados.

Além das características absurdas de escorpiões em geral, como brilhar sob a luz ultravioleta e sobreviver a um holocausto nuclear, o escorpião amarelo não precisa de machos para se reproduzir. A reprodução acontece por partenogênese, ou seja, as fêmeas não precisam ser fecundadas para darem origem a filhotes.

“A tampa do vaso LEVANTA?”

O escorpionismo no Brasil é considerado um problema de saúde pública. No período de 1990 – 1993, foram notificados 24.826 acidentes escorpiônicos, que resultaram em 143 óbitos. A letalidade é de 0,6%. Crianças são o grupo de risco desses acidentes, sendo que 71,4% dos óbitos acontecem em crianças de 0 a 7 anos de idade.

Não mato escorpiões.

E aí está você, feliz em sua casa e relaxando na faxina. Uma barata aqui e outra ali. Você é macho e, como um amigo meu, mata barata com pé descalço. Mas não se engane, pois onde há baratas, lá estarão os escorpiões.

Para melhorar, seu vizinho tem um terreno baldio que não serve pra nada desde que você se mudou, 14 anos atrás (qualquer semelhança com a realidade é puramente intencional).

Um dia você chega tarde em casa e deixa o calçado no quintal  para não acordar a família com seus passos. Na manhã seguinte seu dedão sente uma agulhada ao entrar nesse mesmo calçado, e lá vamos nós aprender sobre os sintomas de uma picada de escorpião.

Use isso. Nem escorpiões querem ser vistos nisso aí.

A dor local e imediata ocorre em quase todos os casos e pode ser de bem discreta a “Jesus, tire esse capiroto em forma de veneno do meu membro e ampute-o a seu bel prazer”, também conhecida como insuportável, com diz o livro aqui.

Podem ser observadas náuseas, vômitos e até diarréia intensa. O veneno tem uma ação tóxica contra o pâncreas, causando dor abdominal. A intensidade de náuseas e vômitos estão relacionadas a gravidade do acidente. Manifestações respiratórias e cardiocirculatórias podem estar presentes. Neurologicamente, podem acontecer tremores, contração muscular e agitação psicomotora.

Baseando-se nos hábitos do escorpião, é possível evitar acidentes. Inseticidas costumam ser inúteis. O acúmulo de entulhos perto das casas atrai baratas, que são a principal fonte de alimento dos escorpiões. Vedando ralos, janelas e frestas na parede você pode impedir que escorpiões venham dar um oi. Cuidado ao revirar roupas, mexer em móveis e cortinas.

Cuidado especial ao calçar sapatos. Uma sacudida no calçado é suficiente pra revelar o que se esconde dentro. Crie galinhas! Essas simpáticas e deliciosas aves são predadoras naturais de escorpiões.

Símbolo de bravura e guardiã dos quintais.

Caso aconteça um acidente, a melhor coisa a se fazer é manter a calma e procurar assistência médica o quanto antes.

Como todo animal peçonhento, o escorpião tem seu papel no mundo. A ausência desses animais resultaria num tsunami de baratas em nossas casas. Acho que é motivo suficiente para deixar esses animais em paz .

Aquele abraço!

 

Tradução da tirinha (Falas do coelho):
Quadro 01: “Chamando todos os amigos floresta! O jogo da ciranda começará agora!”
Quadro 03: “Somente uma rodada e o Rockie já está cansado!”
Quadro 04: “Começando a segunda rodada! Scorpy, vamos lá!”

Referências:
VIDAL HADDAD JUNIOR, FRANCISCO SIQUEIRA FRANÇA, CEILA MARIA SANT’ANA MALAQUE, FAN HUI WEN. Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes

Brasil. Manual de diagnóstico e tratamento dos acidentes por animais peçonhentos. Brasília: Ministério da Saúde. Fundação nacional de Saúde, 1993, 131p.

Amaral CF, de Resende NA, Freire-Maia L. Acute pulmonary edema after Tityus serrulatus Sting in children. 1993

Fotos:
http://territorioselvagem.forumeiros.com/t160-escorpiao-amarelo-tityus-serrulatus

http://500px.com/photo/13268409

 

 

 

 

 

 

 

 

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