Aprenda.birds: A inteligência das aves – Parte 2: a controvérsia do uso...

Aprenda.birds: A inteligência das aves – Parte 2: a controvérsia do uso de ferramentas!

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Por Julio Amaro Betto Monsalvo

Dando continuidade ao tema iniciado na coluna passada (http://www.aprenda.bio.br/portal/?p=10569), vamos seguir tratando desse assunto obscuro que é a inteligência das aves! Depois de ter mostrado as armadilhas geradas pelo antropomorfismo no estudo do comportamento animal, e esclarecido que, em termos de capacidade intelectual, nem sempre tamanho (do cérebro) é documento, vamos discutir alguns exemplos que ilustram até onde vai a inteligência desses animais. Mais uma vez, porém, é preciso ter cuidado na hora de analisar comportamentos e/ou indicativos de inteligência…

Se formos tratar de uma das capacidades mais impressionantes que os animais podem ter – a de usar ferramentas – podemos chegar a conclusões completamente equivocadas se colocarmos a nós, seres humanos, como única base de comparação. Aliás, convém definir o que afinal enquadra-se como uma ferramenta! Os estudiosos de comportamento tem inúmeras definições para esse termo, mas que podem ser resumidas a uma bem simples: ‘qualquer objeto manipulado e carregado por um animal para uso futuro’. Voltando ao ser humano, não é raro ouvir por aí que o uso de ferramentas para fins específicos é uma espécie de trunfo da nossa espécie, e que isso nos teria permitido ‘chegar onde chegamos’ (o que quer que isso signifique…). Volta e meia alguém menos informado leva isso além e diz que essa capacidade nos distinguiria de todos os outros animais…

Pra começo de conversa, quem diz isso está no mínimo uns 50 anos atrasado em termos de conhecimento científico! Nos anos 1960, a famosa pesquisadora Jane Goodall descreveu a utilização de ferramentas por chimpanzés (Pan troglodytes). O primeiro comportamento observado por ela foi o método de inserir pedaços de capim em orifícios de cupinzeiros, usado por esses macacos para retirar os insetos que de outra forma seriam inacessíveis. Desde então, incontáveis outras ‘ferramentas’ foram descritas, e agora sabe-se que seu uso ocorre não só entre os chimpanzés, como também em outros grandes primatas – especialmente aqueles mais próximos de nós (gorilas, orangotangos), que formam a superfamília Hominoidea.

Mais recentemente, a comunidade científica foi surpreendida com a descrição de uso de ferramentas por um parente mais distante nosso, o macaco-prego (atual gênero Sapajus). Antes considerado algo restrito à uma população específica, a utilização de pedras para quebrar castanhas parece ser na verdade bem difundida entre primatas desse gênero. Eu mesmo já tive oportunidade de presenciar isso entre os macacos que vivem livres no Parque Ecológico do Tietê, aqui em São Paulo-SP. Ver um bando deles usando pedras pra quebrar coquinhos é incrível, mas também nos deixa com uma sensação estranha… Planet of the apes feelings, digamos!

Macaco-prego usando ferramenta no Parque Estadual do Jaraguá, SP. Vídeo: Flávia B. Bannister (https://www.youtube.com/channel/UCnwCEediK7KMoYf5Q2zE39w)

Enfim, nada disso seria tão surpreendente se pensarmos em como pode ter surgido a utilização de ferramentas pelos nossos ancestrais… De certa forma, era de se esperar que nossos parentes próximos ainda viventes tivessem algumas habilidades similares. E de maneira também semelhante à nossa, essas técnicas são passadas de um indivíduo a outro através de aprendizado por observação, ou até mesmo são ‘ensinadas’! Ótimos exemplos de um ‘comportamento inteligente’, certo? Sim e não! Isso pode ser válido no caso dos primatas e de vários outros animais, mas deve-se tomar cuidado ao concluir que uso de ferramentas, por si só, indica grande capacidade de aprendizagem e de solução de problemas em qualquer espécie. Afinal, até mesmo larvas de insetos, incapazes de aprender alguma coisa, podem utilizar ferramentas. A formiga-leão (que de formiga não tem nada, mas ganhou esse nome por ser uma espécie de ‘terror das formigas’) não só constrói sua própria armadilha, um funil de areia, como também usa grãos de areia como projéteis pra derrubar suas vítimas!

Ou seja, em muitos casos, comportamentos que consideramos tão sofisticados podem ser simplesmente instintos, algo que o animal ‘já nasce sabendo’. Sendo um comportamento inato, não é fruto de aprendizagem ou escolhas do indivíduo, mas apenas algo que o animal é pré-programado para realizar, uma resposta fixa mantida ao longo de várias gerações pela seleção natural. Os exemplos mais conhecidos de emprego de ferramentas por aves caem nessa categoria, e por muito tempo ajudaram a manter a noção equivocada de que aves não são criaturas muito brilhantes…

Para alguns pesquisadores, a simples construção de um ninho enquadra-se como utilização de ferramentas, pois o animal escolhe objetos inanimados do ambiente para uso futuro, e depois ainda modifica sua forma para atingir um objetivo específico (proteger os ovos/crias, no caso). Alguns ninhos podem ser bem complexos, e certas aves até montam estruturas elaboradas e decoradas de maneira inusitada que não são usadas como ninho, mas sim para atrair a fêmea (caso dos bowerbirds, família Ptilonorhynchidae – veja o vídeo abaixo). Porém, para muitos estudiosos do comportamento animal, um ninho ou estrutura similar não é uma ferramenta, uma vez que não é algo manipulado e carregado pela ave…

Exemplo de comportamento reprodutivo do pássaro-cetim (Ptilonorhynchus violaceus)

Dois outros casos enquadram-se melhor como uso de ferramentas propriamente ditas, mas ainda são comportamentos basicamente inatos, e que portanto não requerem habilidades cognitivas especiais… O woodpecker finch (Camarhynchus pallidus), um dos chamados ‘tentilhões-de-Darwin’ – grupo de passarinhos que distribuem-se pelas Ilhas Galápagos e que foram estudados por esse naturalista, durante a elaboração de sua teoria da Evolução – tem a habilidade de utilizar espinhos de cacto ou gravetos para retirar insetos de orifícios na madeira. O pássaro não somente escolhe a ferramenta que usará, mas também pode modificá-la para torná-la mais eficiente.

No entanto, a espécie já tem uma predisposição genética para o uso desses ‘palitos’, e esse comportamento surge espontaneamente nos jovens! Depois disso, cada indivíduo apenas aperfeiçoa a utilização e/ou elaboração da ferramenta por simples tentativa-e-erro. Assim, o comportamento não pode ser considerado um verdadeiro insight para solução de um problema! Mesmo porque esses pássaros parecem incapazes de aplicar esse uso de ferramentas em outras ocasiões que não a procura por alimento, e em experimentos de laboratório não se mostraram mais aptos a resolver problemas que seus parentes próximos que não utilizam nenhuma ferramenta…

O segundo exemplo de uso de ferramentas não-aprendido é o do abutre-do-egito (Neophron percnopterus), que sabe utilizar pedras para quebrar ovos grandes e de casca grossa dos quais se alimenta, os quais não conseguiria perfurar com o bico. Outra vez, mais do que um comportamento cognitivo complexo, essa habilidade é hoje em dia vista como uma adaptação relativamente simples de outra estratégia da espécie: o hábito de derrubar ovos menores para quebrá-los. Ambos os comportamentos são executados pelos indivíduos já desde jovens e, como ocorre com o woodpecker finch, embora a prática leve à perfeição, em alguns casos fica bem claro que a ave não entende muito bem o funcionamento da coisa…

 

 

 

 

 

 

 

Abutres-do-egito (Neophron percnopterus): à esquerda, uma ave juvenil segurando uma pedra para abrir um ovo de avestruz; à dir., adulto jogando um ovo pequeno, para quebrá-lo

Uma fêmea de abutre-do-egito tentando quebrar um ovo, em cativeiro

Mas não pense que só por isso esse abutre é um tapado! Um estudo recente mostrou que apesar das táticas para quebrar ovos serem instintivas, existe pelo menos um caso de uso de ferramentas por essa espécie que é totalmente aprendido! Em uma população selvagem, as aves aprenderam a segurar gravetos com o bico e utilizá-los como uma espécie de carretel para enrolar lã de ovelhas, que será então usada para forrar seus ninhos. Embora ambos os materiais sejam usados na construção do ninho, a ideia de utilizar um deles para coletar o outro demonstra capacidade de relacionar duas experiências distintas para melhor resolver um problema. Um ótimo exemplo de inteligência! Pena que, ao que tudo indica, o comportamento ainda não foi registrado em foto ou vídeo…

Outro abutre que sabe usar aspectos do ambiente a seu favor é Gypaetus barbatus, o abutre-barbado. Indivíduos dessa espécie aprendem a levantar voo carregando ossos grandes e então soltá-los sobre áreas rochosas específicas (seus ossuários), para que se quebrem em pedaços menores, que podem ser engolidos. As aves levam anos até dominarem completamente essa técnica, e eventualmente passam a aplicá-la também a outros alimentos… Em certas regiões, os Gypaetus aprendem a fazer o mesmo com tartarugas vivas, para quebrar suas carapaças, e também usam esse método para matar outros animais de porte médio. Às vezes, essa relação de causa-e-efeito, de ‘derrubar alguma coisa para conseguir comida’, é levada ao extremo por alguns indivíduos, que chegam a derrubar cabras (grandes demais para serem carregadas, claro) de precipícios, para matá-las! Curiosamente, nas mesmas regiões onde os abutres utilizam essas estratégias para obter alimento, águias-douradas (Aquila chrysaetos) já foram observadas fazendo essencialmente a mesma coisa, para abater tartarugas e cabras selvagens…

Abutre-barbado (Gypaetus barbatus)

Águia-dourada, ou águia-real (Aquila chrysaetos) predando um ibex (Capra pyrenaica) (aviso: não recomendado pra quem não gosta de cenas fortes…)

Seria esse um caso de aprendizagem por observação? Não se sabe ao certo se as águias começaram a realizar esses comportamentos após presenciar os abutres fazendo o mesmo, mas é uma possibilidade! Em um estudo que publiquei no ano retrasado, sugeri que uma espécie de falcão que normalmente se alimenta de aves – o falcão-peregrino (Falco peregrinus) – pode em alguns casos ter ‘aprendido a pescar’ observando certas espécies de águias pescadoras que compartilham seus mesmos habitats. E falando em pesca, alguns dos exemplos mais surpreendentes de emprego de ferramentas por aves também teriam suas raízes na observação do comportamento de uma espécie diferente – mais precisamente, da nossa espécie! Aí vai um exemplo:

Ficou curioso pra saber qual seria a explicação para esse caso? Trataremos disso na continuação dessa coluna… Até lá!

Para quem quiser saber mais:

ALCOCK, J. Animal behavior. – independente da edição, seja o original em inglês (que eu tenho) ou a tradução pro português (Comportamento animal)… é simplesmente um dos melhores livros para quem quer aprender sobre comportamento. Ponto.

FRAGASZY, D. et al. Wild Capuchin Monkeys (Cebus libidinosus) use anvils and stone pounding tools. American Journal of Primatology, v. 64, p. 359-366, 2004. Disponível em: http://www.psychology.uga.edu/people/bios/faculty/FragaszyDoc/Fragaszy,%20Izar,%20Visalberghi%20et%20al%20%202004%20Wild%20capuchin%20monkeys%20use%20anvils%20and%20stone%20hammers,%20AJP%2064,%20359-366.pdf. Acesso em: 04 abr. 2015. – este artigo tem a primeira descrição de uma população selvagem de macacos-prego (localizada no Piauí, Nordeste brasileiro) utilizando ferramentas de forma rotineira.

TOOL use in birds. Map of Life. Disponível em: http://www.mapoflife.org/topics/topic_193_Tool-use-in-birds/. Acesso em: 04 abr. 2015. – uma ótima discussão sobre o uso de ferramentas pelo woodpecker finch (Camarhynchus pallidus) vocês encontram nesta página, onde ainda há um resumo bem legal sobre as aves que utilizam ferramentas!

FERGUSSON-LESS, J.; CHRISTIE, D. A. Raptors of the world. New York: Houghton Mifflin Company, 2001. 992 p. – mais informações sobre as espécies de aves de rapina citadas no texto (e todas as outras aves de rapina do mundo!) estão disponíveis neste livro, a Bíblia para quem se interessa por esses animais.

VIEIRA, B. P.; MONSALVO, J. A. B. Peregrine falcons capture fish in Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, v. 21, n. 4, p. 217-220, 2013. Disponível em: http://www4.museu-goeldi.br/revistabrornito/revista/index.php/BJO/article/view/5408/pdf_859. – recomendar a leitura do próprio artigo, pode?… Enfim. Neste trabalho de somente algumas páginas, minha co-autora e eu descrevemos e analisamos os motivos pelos quais dois falcões de uma espécie especializada na captura de aves inesperadamente resolveram pescar!

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